Grupos de jovens do Semiárido Paraibano trocam experiências durante encontro em Lagoa Seca-PB

Publicado por Aurea Olimpia
Campina Grande, 5 de dezembro de 2017 · Editar

Com o objetivo de entender como os jovens estão organizados em seus territórios, intercambiar e dar visibilidade a experiências de juventude e promover a auto-organização de jovens camponeses, um encontro reuniu, pela primeira vez, em Lagoa Seca-PB, nos dias 01 e 02 de dezembro cerca de 30 jovens de seis das sete microrregiões onde a Articulação do Semiárido Paraibano – ASA Paraíba atua.

O Encontro teve inicio com uma mística inspirada na pedagogia griô, onde os jovens foram convidados a refletir e sentir as energias da natureza, do viver e fazer camponês, relembrando e pedindo a benção para seus ancestrais e se conectando com as raízes camponesas.

Na manhã da sexta-feira (01), jovens de três dinâmicas territoriais ligadas a ASA Paraíba apresentaram um carrossel de experiências, metodologia que permite que os participantes do encontro se dividam em três grupos e visitem, alternadamente, espaços de apresentação, girando um a um, até visitar todos. As três experiências compartilhadas foram: a do GT de Juventude do Coletivo das Organizações da Agricultura Familiar do Cariri, Seridó e Curimataú; da Comissão de Juventude do Polo da Borborema e da experiência com jovens quilombolas no Médio Sertão da Paraíba.

Segundo Ana Maria Lopes Nascimento, do Coletivo das Organizações da Agricultura Familiar do Cariri, Seridó e Curimataú, a juventude sempre esteve envolvida na catequese, nas feiras e nos demais espaços de organização comunitária, mas, com o passar do tempo, viu que precisava de um espaço para tratar só de suas questões. No território, o teatro, o rádio, o audiovisual e as mídias de bolso, são usadas no processo de formação para tratar das questões que mobilizam a juventude. O Coletivo recebeu em 2014, através de uma parceria com a organização não governamental Patac, o Projeto Cinema Nosso, que realizou oficinas de audiovisual em comunidades rurais, onde os jovens tiveram a oportunidade de produzir curtas metragens, chegando a receber equipamentos para isso e a expor sua produção em um festival nacional. O GT de juventude no território teve início em 2013, em seis dos 11 municípios, hoje já está organizado em todos os 11 municípios e acabou de realizar um encontro com cerca de 120 jovens.

O Polo da Borborema é uma articulação de 14 sindicatos de trabalhadores rurais, na região da Borborema, Agreste Paraibano. O trabalho do Polo com jovens teve início em 2010, com a realização do primeiro Encontro da juventude camponesa, que reuniu jovens que já participavam da Campanha pela Valorização da Vida na Agricultura Familiar, um processo de formação com crianças, filhas de agricultores e agricultoras do território, que acontece desde 2002. De acordo com Márcia Araújo, integrante da Comissão Regional de Jovens do Polo da Borborema, a partir do crescimento das crianças, foi surgindo a necessidade de se ter um espaço para a juventude. Com o segundo encontro em 2013, houve a criação da comissão regional de jovens, a partir das comissões municipais e grupos de jovens nas comunidades. Os jovens realizaram um diagnóstico participativo em 2016 que orientou o processo de formação a partir dos desafios e perspectivas apontados pela juventude local. Esse trabalho culminou com a realização da I Marcha da Juventude Camponesa, que levou cerca de mil jovens às ruas de Remígio-PB e um processo de feiras agroecológicas e culturais da juventude.

O trabalho da organização Ação Diocesana de Patos, apresentada pelo assessor técnico, Anselmo Dantas, tem foco na juventude de comunidades quilombolas que participam de projetos que promovem o seu empoderamento, a partir do estímulo de práticas como a sistematização de experiências pelos próprios jovens como boletins e cartilhas, também a realização oficinas de fotografia, grafite e outras vivências na comunidade como trilhas ecológicas. Os jovens tem papel decisivo nas comemorações do mês da consciência negra e desenvolvem atividades culturais como exposições fotográficas, apresentações de dança e grafitagem durante esta e outras atividades dentro de suas comunidades.

Após o Carrossel, houve uma rodada de percepções acerca do que foi apresentado. Chamou a atenção a experiência do Fundo Rotativo Solidário, uma espécie de consórcio, para jovens que financia a compra de instrumentos musicais, existente hoje no território do Coletivo. Foram identificadas semelhanças como a perspectiva da convivência com o Semiárido, a luta pela terra e o uso de manifestações artísticas para comunicar as ações e as bandeiras de lutas.

No período da tarde, divididos em grupos, os jovens identificaram um conjunto de desafios, ou ‘desencantos’ enfrentados pela juventude camponesa, a exemplo do machismo, a dificuldade de acesso a recursos naturais como a terra e a água, a insegurança no campo, a falta de políticas públicas culturais que contemplem a juventude, a geração de renda, o fechamento das escolas do campo e a ausência de uma educação contextualizada, entre outros. Como perspectivas positivas ou ‘encantos’, foram lembrados os programas de compra direta de alimentos como PAA e PNAE, os bancos de sementes comunitários, os fundos rotativos solidários, as feiras agroecológicas e os programas de cisternas P1MC e P1+2.

Os participantes da atividade foram desafiados ainda a propor estratégias e ações de enfrentamento aos desafios, que foram aprofundadas na programação do sábado (02), além de planejarem uma agenda coletiva para o ano que vem. O desafio de uma educação contextualizada, que engloba ainda a problemática na Paraíba do fechamento das escolas do campo, das propostas de “Escola sem Partido”, da qualidade das estradas e da violência na zona rural, por exemplo, foi escolhida como o foco da ação do juventude em 2018.

Os jovens reafirmaram a importância da organização do GT de Juventude da ASA Paraíba, criado recentemente durante a Festa da Sementes da Paixão, e se comprometeram a dialogar com as demais instâncias de decisão da ASA Paraíba para a viabilização de um Seminário sobre Educação Contextualizada, quando serão realizadas oficinas de produção em audiovisual, teatro, mídias digitais e de outras estratégias de comunicação para aprofundar a temática e promover um processo de incidência no que diz respeito às políticas públicas que dizem respeito à questão. Como encaminhamento final foi definida a data do primeiro de uma série de encontros periódicos da juventude, em fevereiro de 2018.

O encontro aconteceu com o apoio do Projeto “Metodologia de produção pedagógica de materiais multimídia com enfoque agroecológico para a agricultura familiar” (Pedagroeco), macroprograma 4 de Comunicação e Transferência de Tecnologia, vinculado aos Núcleos de Agroecologia da Embrapa Tabuleiros Costeiros (Aracaju, SE), da Embrapa Meio-Norte (Piauí, PI) e da Embrapa Semiárido (Petrolina, PE) em parceria com a Embrapa Informação Tecnológica (Brasília, DF).

O projeto busca fortalecer a atuação em rede de Unidades de pesquisa da Embrapa no Nordeste que atuam no campo da agroecologia, bem como ampliar as parcerias com organizações não governamentais, especialmente com a Articulação Semiárido Brasileiro – ASA, com os institutos federais de educação e escolas famílias agrícolas do Nordeste para a produção de materiais multimídia (vídeos, áudios, cartilhas e livros) que possam fazer parte no acervo das Minibibliotecas, bem como distribuídos aos diversos territórios onde a Empresa e as instituições parceiras têm atuação. O projeto também pretende estimular o protagonismo juvenil no campo e a divulgação das experiências agroecológicas em rede nos estados de Sergipe, Alagoas, Piauí, Paraíba e Bahia.