Centrac e famílias agricultoras do Agreste lançam projeto de tecnologias sociais ‘Quintais Agroecológicos’

Publicado por Thaynara Policarpo
Campina Grande, 28 de novembro de 2018 · Editar

O Centro de Ação Cultural – Centrac em parceria com o Fórum de Lideranças do Agreste – Folia e a Plataforma Mercosur Social y Solidario – PMSS lançou na manhã da última terça-feira, 27 de novembro, o Projeto “Quintais Agroecológicos: espaço de construção e autonomia das mulheres, soberania alimentar e nutricional e geração de renda”. O evento aconteceu na sede do Grupo “Coletivo Unidos no Campo”, no Assentamento José Antônio Eufrozino, em Campina Grande e contou com a participação de mais de 100 pessoas entre elas representantes das 90 famílias beneficiárias do projeto, parceiros e apoiadores convidados, que foram recebidos com um café da manhã agroecológico. Em seguida, houve apresentação do projeto e falas dos participantes.

A iniciativa será desenvolvida em quatro municípios do Agreste Paraibano (Aroeiras, Campina Grande, Mogeiro e Umbuzeiro) e consiste na implementação de oito diferentes tecnologias sociais de convivência com o Semiárido: 1) Barramento de Base Zero, 2) Fogão Agroecológico, 3) Sistema de reuso de água, 4) Fundo Rotativo Solidário, 5) Silagem, 6) Fenação, 7) Biodigestor, 8) Produção de biofertilizantes. As tecnologias e as infraestruturas serão implementadas nos quatro municípios, em uma divisão que foi pré-definida em diálogo com as famílias agricultoras no âmbito que integram o Folia em seus encontros municipais.

 “É importante entender o termo ‘tecnologia’ não apenas como uma infraestrutura, mas também como metodologias, conhecimentos, manejos. Aqui falamos desde o fogão agroecológico, o biodigestor até o próprio Fundo Rotativo Solidário (FRS) e as formas e manejo de pragas”, explicou Madalena Medeiros, assessora técnica do Centrac e coordenadora do Projeto Quintais Agroecológicos.

O projeto conta com o apoio da Fundação Banco do Brasil Voluntariado – FBB e do Comitê Católico Contra a Fome e a Favor do Desenvolvimento – CCFD. São parceiros da iniciativa ainda a Articulação do Semiárido Paraibano – ASA Paraíba e o Instituto Nacional do Semiárido – INSA. Maria do Socorro Oliveira, da coordenação do Centrac lembrou que a parceria com a Fundação Banco do Brasil existe desde 2014 e já foi responsável na região pela construção de 643 cisternas de produção, 20 sistemas de reuso de água, 20 fogões agroecológicos, 11 barramentos de base zero e 05 biodigestores e pelo apoio inicial à criação de quatro feiras agroecológicas nos municípios de Aroeiras, Puxinanã, Mogeiro e Itabaiana.

Durante a atividade de lançamento, a agricultora e feirante Solange Araújo, do Sítio Bernardo, em Aroeiras, que já foi comtemplada com iniciativas semelhantes, deu o seu depoimento sobre como iniciativas simples como a do projeto, ajudaram a melhorar a sua vida. “Projetos desse tipo tem um significado muito grande, eu com meu sistema de reuso de água não perco mais uma gota de água, seja para regar as plantas, seja para lavar a pocilga, com meu fogão eu não preciso estar comprando o gás, que anda muito caro. Isso tudo faz diferença na nossa renda. Está de parabéns a Fundação (Banco do Brasil) e quem fala mal desses projetos só podem ser os grandões, porque para nós, os pequenos produtores, é de uma importância muito grande”.

Valdir Cordeiro, vice-presidente do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional – Consea-PB e assessor técnico do Patac, entidade da ASA Paraíba, em sua fala, fez um resgate histórico sobre a imagem que se tinha do Semiárido no passado, de seca e de terra arrasada, e como essa imagem aos poucos foi sendo substituída por uma outra, a de um lugar onde as pessoas convivem com dignidade.

Segundo o convidado, isso só foi possível quando as grandes obras, concentradas nas terras dos grandes proprietários, foram sendo substituídas por pequenas e descentralizadas construções: “Um milhão e duzentas mil famílias tem hoje um reservatório para armazenar água segura para beber e cozinhar. Quantos açudes seria preciso para guardar tanta água? Isso é praticamente um oitão de um açude em cada casa”. Valdir lembrou que no final dos anos 80, um milhão e meio de pessoas morreram em decorrência da seca e atualmente após a maior estiagem da história, não há registro de mortes, devido a iniciativas e parcerias como a do projeto. “Na Paraíba cerca de 500 mil pessoas ainda passam fome, ou por não terem acesso ao alimento ou pela péssima qualidade da alimentação, iniciativas como a deste projeto ajudam a combater esse problema”.

Geovergue Rodrigues de Medeiros é pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido – INSA. Ele falou sobre a parceria para as atividades de estocagem de ração animal: “Gostaria de reafirmar a importância de propostas como esta e dizer que nós enquanto INSA, vamos contribuir com a produção de forragem, pois a garantia da segurança alimentar dos rebanhos é fundamental para a convivência com o Semiárido. Sabemos que se faltar alimento para os animais, vai faltar alimento para a gente”, afirmou.

Abson Eric Sátiro Oliveira é gerente de relacionamento pessoa jurídica do Banco do Brasil de Campina Grande e representou a Fundação Bando do Brasil no evento: “Venho do interior de Pernambuco, um lugar até mais seco que o de vocês, então sei como é a vida nesses locais. Por isso, espero que continuem colocando força nisso e se apoiando para seguir com este trabalho tão importante”. Madalena Medeiros falou ainda sobre os objetivos do projeto “ele surge com a função de fortalecer esse espaço que é o quintal, pois quando colocamos no papel, podemos perceber como ele é responsável pela geração de renda e pela produção de alimentos para a família, com destaque para o papel e a contribuição das mulheres”.

Maria do Socorro dos Santos Vieira é moradora do Assentamento José Antônio Eufrozino e será uma das agricultoras a serem beneficiadas pelo projeto. “Me sinto uma privilegiada, consegui a minha cisterna de enxurrada e não vejo a hora de conquistar o meu fogão para produzir meus bolos, meus doces, pois a gente sabe como o gás está caro e fica tudo mais difícil para a gente. Estou muito ansiosa e gostaria de agradecer por esta oportunidade que estão nos dando”.