No março de lutas das mulheres por igualdade de direitos, CENTRAC realiza ações que pautam a divisão justa do trabalho doméstico

Publicado por Thaynara Policarpo
Campina Grande, 2 de abril de 2025

Desde o início do século passado, o mês de março marca as lutas das mulheres em todo o mundo pela equiparação de direitos. A data também representa a resistência contra o feminicídio, a exploração, a desvalorização e a invisibilização do trabalho doméstico e de cuidados, exercidos quase que exclusivamente por elas. Além disso, evidencia as desigualdades no acesso ao lazer e ao tempo livre.

Os resultados da pesquisa Gênero é o que importa: determinantes do trabalho doméstico não remunerado no Brasil, publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2023, mostram que, no Brasil, as mulheres dedicam 11 horas semanais a mais do que os homens ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerados. Embora essencial para a sustentação e reprodução da vida, esse trabalho é invisibilizado e desvalorizado, principalmente quando realizado por mulheres agricultoras. Muitas delas atuam no agroecossistema familiar e nos quintais ao redor de casa, espaços fundamentais para a formação da renda, segurança alimentar e organização da vida familiar.

Para confrontar essa realidade, o CENTRAC realizou um ciclo de oficinas formativas com cerca de 80 mulheres e jovens dos Assentamentos José Antônio Eufrouzino e Pequeno Richard, em Campina Grande. Os encontros abordaram a construção cultural, social e racial da divisão sexual do trabalho doméstico e de cuidados. Também discutiram o papel das mulheres e meninas no agroecossistema familiar e sua contribuição para a soberania alimentar e geração de renda.

“Achei muito importante discutir a divisão do trabalho doméstico, porque nós, mulheres, trabalhamos muito e não somos reconhecidas. Os homens, só pelo fato de trabalharem fora ou no roçado, quando chegam em casa querem a comida pronta, vão assistir ao jornal, olhar o telefone ou ouvir rádio. Já nós, além de trabalharmos no roçado, ainda temos que alimentar os animais, preparar a janta, fazer o café da manhã, cuidar do almoço. Nossa luta é muito cansativa. Por isso, achei muito válido o Centrac trazer esse debate, porque os ‘direitos são para homens e mulheres, e as responsabilidades também’. Nada melhor do que discutir esse tema e, aos poucos, conquistar a participação deles nas tarefas de casa”, contou a agricultora Andreia Carvalho, do Assentamento Pequeno Richard.

No contexto do II Encontro de Mulheres do Folia, que reuniu mulheres e jovens dos assentamentos e de várias localidades do Agreste paraibano, o tema também foi debatido. Além disso, discutiu-se a importância do acesso à água para o trabalho doméstico e de cuidados.

A agricultora Maria da Conceição, do Assentamento José Antônio Eufrouzino, reforçou a importância da temática. “Para mim, foi essencial, porque muitas mulheres ainda acham que o serviço doméstico é só delas. Desde pequenas, as meninas já crescem acreditando que cuidar da casa, dos irmãos, lavar a roupa e arrumar a cama são responsabilidades só delas. Mas, quando a gente participa das oficinas e assiste ao filme da campanha, que fala sobre a personagem Rosa, entendemos que a mulher tem direito de fazer o que quiser. Ela não precisa se limitar ao fogão, acordar cedo e dar conta de tudo sozinha. Isso gerou um debate muito importante, e muitas mulheres se reconheceram nessa realidade. O trabalho tem que ser dividido, e os homens também precisam aprender a fazer.”

Essas ações se conectam com a Campanha pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico, que tem como lema “Direitos são para mulheres e homens, responsabilidades também!”. O objetivo é denunciar a sobrecarga enfrentada pelas mulheres e reafirmar que o trabalho doméstico e de cuidados garante a sustentabilidade da vida. Por isso, deve ser reconhecido e compartilhado de forma justa entre todos os membros da família.

A campanha também busca envolver os homens, sensibilizando-os sobre a corresponsabilidade no cuidado dos filhos e na manutenção da casa. O objetivo é revisar preconceitos e transformar discursos, práticas e atitudes, promovendo a equidade de gênero. “Pra mim a discussão do trabalho doméstico é muito importante… que os homens possam ajudar as suas irmãs, mulheres, mães… Pra mim não é justo que as mulheres façam tudo”, disse o jovem Rafael Silva, que integra o Fundo Rotativo Solidário de Juventudes do Assentamento José Antônio Eufrouzino.

Todas as atividades do Março de Lutas integram as ações do Projeto Fortalecimento de Sistemas Alimentares com Mulheres no Semiárido Paraibano, desenvolvido pelo CENTRAC com o apoio de Manos Unidas, e do Projeto Articulando Atores Locais para a Construção de Políticas Públicas de Segurança Alimentar e Nutricional, apoiado por Misereor e CCFD.

Além de Campina Grande, a Campanha pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico está sendo difundida no Fórum de Lideranças do Agreste (Folia). Conta com o apoio da Rede Feminismo e Agroecologia do Nordeste, através do Projeto Baraúnas dos Sertões, um espaço de formação para agentes de ATER comprometidos com a agroecologia, o feminismo e o antirracismo. A iniciativa ocorre em parceria com o DATER/SAF/MDA, a UFRPE, a Rede ATER NE, a Rede Feminismo e Agroecologia do NE, a ANA, a ASA e o GT Mulheres da ANA.

📽️Assista ao vídeo da Campanha pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico no Youtube do CENTRAC, CLIQUE AQUI!