“Quando a gente investe nas mulheres, a família toda avança”

Publicado por Thaynara Policarpo
Campina Grande, 19 de junho de 2026

Formações realizadas pelo CENTRAC fortalecem a participação das mulheres nos processos de decisão e na construção de políticas públicas. 

“Quando a gente investe nas mulheres, a família toda avança.” Foi com esse objetivo que o Centro de Ação Cultural-CENTRAC promoveu oficinas formativas e informativas sobre a importância da participação das mulheres nos espaços de decisão. As atividades fazem parte do projeto Fortalecimento de Sistemas Alimentares com Mulheres no Semiárido Paraibano, realizado com apoio de Manos Unidas, nos assentamentos José Antônio Eufrouzino e Pequeno Richard, em Campina Grande.

Durante os encontros, que envolveram cerca de 70 mulheres, mas também homens e jovens, foram debatidos os diferentes espaços de participação e decisão existentes nas comunidades, como associações, sindicatos, Conselhos de Políticas Públicas como o de Desenvolvimento Rural Sustentável, conselhos de saúde, educação e merenda escolar, além de conferências de políticas públicas, audiências públicas e comissões municipais.

“É preciso que as mulheres estejam nesses espaços para pensar políticas públicas que melhorem suas vidas”, afirma Patrícia Sampaio, coordenadora do Programa Direitos e Igualdade de Gênero do CENTRAC. Ela ressalta que a organização e a participação das mulheres são fundamentais para enfrentar as desigualdades de gênero e fortalecer a luta pela divisão justa do trabalho doméstico e de cuidados.

Durante as formações, também foram discutidas as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para participar desses espaços. Entre os principais desafios apontados tem-se a insegurança e o medo de se expressar publicamente. Muitas participantes relataram sentimentos como: “A gente tem vergonha de falar”, “A gente tem medo de ser julgada” e “Medo de falar e não ser compreendida”.

A jovem Letícia Ribeiro, participante da oficina, destacou que a vergonha de falar em público foi apontada como uma das principais barreiras para a participação das mulheres nos espaços de decisão. Além disso, ela ressaltou que a sobrecarga das atividades do dia a dia também dificultava essa presença. “Muitas vezes a gente quer participar, mas acaba não conseguindo por causa das responsabilidades que já temos em casa e na comunidade”, comentou.

Para Patrícia, fortalecer a participação das mulheres passa também pelo incentivo mútuo, pela valorização das conquistas já alcançadas e pela construção de relações mais igualitárias dentro das famílias e comunidades. “A gente precisa estar nos espaços e incentivar que outras mulheres estejam para que nossas pautas estejam também”, reforçou. Ela destacou ainda que políticas públicas como o Programa Dignidade Menstrual são exemplos de conquistas resultantes da mobilização e da participação das mulheres nos espaços de poder e decisão.

As discussões também abordaram a importância de debater o acesso à água a partir da perspectiva do trabalho de cuidados. Em muitas famílias, especialmente nas áreas rurais, mulheres e meninas são as principais responsáveis por garantir a água necessária para atividades fundamentais do dia a dia, como a higiene pessoal, o preparo dos alimentos, a limpeza da casa e o cuidado com crianças, pessoas idosas e pessoas doentes ou com deficiência.

Esse é um tema diretamente relacionado à saúde, ao bem-estar e à qualidade de vida das famílias e deve ser pauta nos espaços de decisão. Quando o acesso à água é limitado ou difícil, a sobrecarga sobre as mulheres aumenta, impactando seu tempo, sua saúde e suas possibilidades de participação em espaços de formação, organização comunitária e tomada de decisões.

Ao discutir a água e o trabalho de cuidados, as formações reforçaram a importância de reconhecer, valorizar e redistribuir esse trabalho, que é essencial para a manutenção da vida, mas que ainda permanece invisibilizado e concentrado de forma desigual sobre as mulheres. A divisão mais justa das responsabilidades domésticas e de cuidados entre homens e mulheres é fundamental para que elas tenham mais tempo, autonomia e condições de participar da vida pública, dos processos organizativos e dos espaços de decisão.

As atividades também destacaram que não basta incentivar a participação das mulheres: é necessário que os espaços de representação, gestão e controle social estejam abertos à sua presença efetiva, acolhendo suas contribuições e garantindo condições para que suas vozes sejam ouvidas e consideradas nos processos de tomada de decisão.

A presença ativa das mulheres nos espaços de decisão contribui para a construção de comunidades mais justas, democráticas e igualitárias. Compartilhar responsabilidades, ampliar a participação e garantir que suas demandas sejam reconhecidas e incorporadas às políticas públicas são passos fundamentais para a transformação social e para o fortalecimento da cidadania.