Agricultores do Agreste realizam encontro de preparação para a 8ª Festa Estadual das Sementes da Paixão

Publicado por Thaynara Policarpo
Campina Grande, 6 de maio de 2019 · Editar

Agricultoras e agricultores do Fórum de Lideranças do Agreste – Folia, estiveram reunidos na última sexta-feira (3) em um encontro de preparação para a oitava edição da Festa Estadual das Sementes da Paixão, que acontecerá de 05 a 07 de junho de 2019, em Soledade-PB. O encontro aconteceu no município de Fagundes-PB e contou com a participação de cerca de 40 lideranças agricultoras de bancos de sementes comunitários do território e representantes das três entidades de assessoria técnica que atuam na região do Agreste: o Centro de Ação Cultural – CENTRAC, a Comissão Pastoral da Terra – CPT e o Serviço Pastoral dos Migrantes do Nordeste – SPM-NE.

O encontro de preparação teve como objetivo promover uma reflexão sobre a ameaça do avanço dos transgênicos na região para a conservação das sementes crioulas, além de debater sobre o problema do fechamento das escolas do campo, que se constitui em um grande desafio para a permanência das famílias agricultoras em suas comunidades.

Após as boas vindas e acolhida, a programação teve início com uma rodada onde os representantes dos 14 municípios que fazem parte do Folia socializaram como está o plantio, produção, estoque e as perspectivas de colheita de sementes em suas localidades. Também foi discutida a procedência destas sementes plantadas.

Em seguida, os participantes debateram em plenária sobre os desafios na conservação das sementes que são o avanço da contaminação por transgênicos devido à entrada do milho da venda de balcão da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e dos programas de distribuição de sementes no estado e nos municípios que compram sementes de fora. Outra grande ameaça tem sido os anos consecutivos de seca e a persistência do uso de veneno por parte de algumas famílias.

“Não adianta nada eu ter todo o cuidado com o meu milho crioulo e meu vizinho plantar o milho transgênico que recebeu da Emater ou que trouxe da Conab, porque pela polinização da planta, vai contaminar. Na minha comunidade a gente está com esse debate para não permitir que deixe entrar, se pegou o milho, que coloque para os animais, mas não plante”, afirma Daniela Pereira dos Santos, do Assentamento Antônio Eufrozino, de Campina Grande.

Os agricultores relembraram as vantagens do trabalho de organização e conservação das sementes nos bancos comunitários, como: ter a semente de qualidade, selecionada e saudável, no tempo certo de plantar, além de já se ter um conhecimento sobre essa semente que é adaptada à sua região, solo e clima. “No banco de sementes da nossa comunidade, quando o agricultor pega a semente, ele recebe um comprovante que inclusive já serviu para pessoas como prova de atividade de agricultor para a aposentadoria rural”, acrescenta dona Solange Araújo, do Sítio Bernardo, em Aroeiras-PB.

Divididos em grupo, os presentes debateram algumas estratégias de enfrentamento aos desafios, entre elas: ampliação dos testes de transgenia; não plantar todo o estoque, manter sempre uma quantidade reserva de sementes; diálogo com o Estado sobre a compra e distribuição de sementes crioulas; alertar os vizinhos sobre a importância de só plantar sementes cuja origem seja conhecida e segura; ampliar os momentos de troca sobre os defensivos naturais, a adubação orgânica e de esclarecimento sobre os transgênicos; acompanhar as devoluções aos bancos de sementes para garantir um estoque com a mesma qualidade que foi doada.

“No nosso assentamento, não precisamos pegar as sementes da Emater porque já tínhamos as nossas, sempre estamos conscientizando as pessoas a não receberem essa semente distribuída porque ela é transgênica, graças a deus plantamos o feijão e já estamos colhendo uma semente muito boa”, comenta Maria José Rodrigues da Silva, do Assentamento Dom Marcelo, em Mogeiro-PB.

“O fundamental para que a gente entenda a importância de valorizar as sementes da paixão é que essa semente de fora não é adaptada à nossa região. É preciso entender que a ciência não é neutra, ela tanto pode ajudar a libertar a comunidade, como pode gerar dependência, como é o caso dos transgênicos”, lembrou Madalena Medeiros do Centrac.

No período da tarde, foi socializado com o grupo o histórico das ações do Programa Cisternas nas Escolas no território e debatida o problema do fechamento das escolas do campo. A partir da reflexão conjunta, foram tiradas as seguintes encaminhamentos para o enfrentamento ao problema: garantir momentos de debate nas comunidades e levar a campanha “Fechar escola é crime!”; entrar com ações junto ao Ministério Público Federal – MPF e aproveitar outros momentos de reuniões nas comunidades para tratar sobre o assunto.

Ao final do encontro, foram dados os informes, levantados os critérios e feita a escolha dos nomes que irão representar o Folia na 8ª Festa das Sementes da Paixão.